Somos apenas um Parágrafo?
- Amanda Machado
- há 5 dias
- 2 min de leitura
“Sou um parágrafo.”
Li isso enquanto montava o meu site.
Era apenas um texto genérico do modelo, desses que estão ali para ser substituídos; mas, por algum motivo, essa frase me prendeu. Não porque eu fosse só um parágrafo — longe disso — mas porque havia ali algo da ordem da linguagem, desse lugar onde, como diria Lacan, somos tecidos pelas palavras que nos atravessam.
Se eu sou um parágrafo, talvez seja porque carrego muitos outros dentro de mim. Um mar de frases que tentam dar conta de quem sou, de onde venho, do que desejo.
E, ao pensar nisso, percebi o quanto a psicanálise habita até mesmo o mais banal dos botões: “escreva sobre você”.
Como se fosse simples.
Vender-se.
Apresentar-se.
Montar um site.
Dizer “essa sou eu” sem estremecer por dentro.
A verdade é que eu nunca fui muito boa nisso.
Nunca soube me descrever em poucas linhas, nunca dominei a arte da autopromoção.
Meu currículo dorme por anos em alguma pasta que parei de abrir. Meu LinkedIn ficou entregue às teias do esquecimento. Meu Instagram pessoal? Exclui.
E, mesmo sendo tímida — ou justamente por isso — me lancei na psicologia, sai e tive que voltar.
Sim, contraditório.
Mas quase tudo o que é verdadeiro em nós nasce desse tipo de contradição.
Não sei me vender; sei me afetar.
Não sei caber num parágrafo; sei escutar.
E foi com essa certeza frágil e decidida que entrei na faculdade: eu queria ajudar pessoas a se conhecerem, a entenderem suas dores, suas histórias, seus movimentos internos.
Queria conhecer gente.
Mas, antes de tudo, queria cuidar dos meus — porque o desejo de cuidar quase sempre começa perto da gente.
Quando criança, eu sonhava em ser pediatra. Hoje entendo que não era a medicina quem me chamava, mas o gesto: de estar diante de alguém considerado “frágil” e oferecer cuidado.
E aqui faço questão de colocar as aspas, porque fragilidade, para mim, nunca significou fraqueza.
Fragilidade é abertura.
É a fresta por onde o outro pode entrar.
É o espaço onde a relação acontece de fato.
Sem fragilidade não há encontro.
Sem queda de defesas não há troca.
É nesse lugar — entre o que estremece e o que sustenta — que eu quero trabalhar.
Não com pacientes, mas com pessoas.
Com histórias, com afetos que se constroem devagar, com tempo.
Se na descrição de quem somos, somos apenas um parágrafo, hoje eu entenderia que sou o movimento entre um e outro. Sou a pausa. Sou retorno.
A frase que dobra e se desdobra.
Sou o texto que ainda está sendo escrito e reescrito.
Até o próximo parágrafo.






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