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Janeiro é tempo de voltar a si.

  • Amanda Machado
  • 13 de jan.
  • 2 min de leitura

Nós, brasileiros, costumamos dizer que o ano só começa depois do Carnaval. Nunca compreendi totalmente esse modo de viver — se é que posso chamá-lo assim —, mas, como boa brasileira, também nunca questionei muito. Apenas aceitei que há um tempo suspenso entre o fim de um ano e o começo de outro.


Pensando sobre o tema deste texto, me dei conta de que atravessamos o Natal, o Ano Novo, celebramos encerramentos e, então, janeiro chega como um intervalo. Um mês que se parece menos com começo e mais com retiro. Muitas pessoas, como eu, não entram em férias nesse período, mas ainda assim sentem a ressaca do recesso: o corpo segue, mas algo dentro demora a acompanhar.


Esse tempo entre o último dia do ano anterior e o Carnaval costuma ser chamado de recomeço. Às vezes, recomeçar é apenas voltar à rotina. Outras vezes, é tentar criar novos hábitos, fazer planos, sonhar de novo. Há também quem recomece encerrando ciclos, mudando de rota, abrindo páginas inéditas da própria história. Mas, seja qual for o recomeço, ele quase sempre me remete a um movimento mais silencioso: o retorno a si.


Voltar a si pode ser recalcular caminhos, cuidar de si, rever desejos, reorganizar prioridades. Pode ser, inclusive, não saber ainda — apenas escutar. Na psicanálise, quando Freud teoriza sobre o narcisismo, ele nos ajuda a compreender esse movimento como um investimento libidinal em si mesmo, necessário à preservação do sujeito.

Há um trecho que sempre me atravessa:

“Um forte egoísmo protege contra o adoecimento, mas afinal é preciso começar a amar, para não adoecer, e é inevitável adoecer quando, devido à frustração, não se pode amar.” Sigmund Freud

O retorno a si, portanto, não é um fim em si mesmo. Ele aparece em diferentes momentos da vida: após um término, uma perda, uma frustração. É quando nos retraímos, nos recolhemos, dizemos que não queremos mais amar, mais tentar. Mas, como Freud nos aponta, esse tempo de autopreservação precisa passar. É necessário, em algum momento, sair do narcisismo para que o laço com o outro possa novamente existir.


Talvez janeiro seja exatamente isso: um tempo legítimo de recolhimento. Um espaço de cura antes de voltar ao mundo. Não um mês de decisões definitivas, mas de escuta. Não um mês de respostas, mas de retorno.


Eu sigo, aos poucos, tentando voltar a mim

e às palavras.

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Estudante de Psicologia — Interessada em psicanálise, pessoas e livros.
Atravessada pelas palavras e fazendo casa nos encontros que nascem delas.

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