Afetos que não cabem na mesa do Natal
- Amanda Machado
- 19 de dez. de 2025
- 2 min de leitura
O Natal está chegando.
Mais uma vez nos vemos às portas de reuniões familiares, encontros que muitas vezes desafinam, mas que nesta época do ano costumam ser cobertos por uma camada espessa de tolerância forçada. Afinal, é Natal.

Tenho sentido, a cada ano, mais dificuldade em estar em situações adversas. Talvez porque o mundo esteja mais ruidoso: a polarização, as redes sociais, os conflitos que atravessam o coletivo e chegam até a mesa posta. Sempre há aquela pessoa cuja presença já era prevista — e que antes era mais fácil “aceitar”. O tio do pavê, a pergunta invasiva sobre filhos, o riso que não escuta o outro. Hoje, até isso cansa. Estamos cansados.
E ainda assim, algo do Natal insiste. Um certo preciosismo, quase um pacto silencioso: suportar o desconforto em nome de uma imagem. Isso me inquieta. Por que tem se tornado tão amargo — e tão angustiante — encontrar aquele pai pouco afetuoso que performa carinho diante dos outros, aquela mãe que sustenta uma perfeição frágil, irmãos que se evitam, cunhados que se toleram? Não falo de uma família específica, mas de um retrato que se repete, um sintoma social difícil de negar.
O que nos faz sentar à mesa com quem nos atravessa de forma dolorosa, fingindo que não? Por que nos submetemos, ano após ano, a silêncios forçados em nome de uma foto de família perfeita? Se durante todo o ano empurramos para debaixo do tapete o que precisa ser dito, se acumulamos mágoas como quem empilha caixas em um porão, o que esperamos que aconteça quando as luzes de Natal se acendem?
Hoje, um pouco mais consciente — e depois de muitas sessões de análise — tenho tentado outra coisa: falar. Nomear o que dói para quem dói. Não lançar os afetos num abismo onde se perde o contorno de quem somos. A sinceridade, sobretudo consigo, tem sido um valor inegociável. Nem todo afeto precisa virar enfeite. Nem todo encontro precisa ser sustentado à custa de si.
Podemos dividir a mesma sala com pessoas difíceis sem nos confundir com o que é do outro — embora isso seja, eu sei, um trabalho árduo. A psicanálise nos ensina que nem todo mal-estar precisa ser resolvido, mas pode ser reconhecido. E reconhecer já é um gesto ético.
Nossas famílias são imperfeitas porque são humanas. Erram, caem, repetem, tentam de novo. O Natal pode ser tempo de reencontro, mas não precisa ser tempo de sofrimento. Respeitar os próprios limites também é uma forma de cuidado — e talvez uma das mais honestas.
Que este Natal permita menos encenação e mais verdade.
Menos obrigação e mais escuta.
E, sobretudo, mais respeito por aquilo que nos atravessa.
Feliz Natal. 🎄









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