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A Menina e a Estátua Perdida

  • Amanda Machado
  • há 5 dias
  • 2 min de leitura

Um pé adiante, outro ainda hesitante.

Quase como abrir uma porta sem saber o que nos espera do outro lado.


Criar este espaço — este blog — foi assim: uma mistura de vergonha, desejo, receio e impulso.

Não porque eu queira mostrar algo ao mundo, mas porque certas coisas pedem passagem, mesmo quando ainda não sabemos o nome delas. Começamos pelo que sentimos, não pelo que sabemos.


Sempre me perguntei se essa era mesmo a melhor forma de conversar com o mundo — e, talvez por teimosia ou destino, continuo acreditando que sim. Não porque eu sempre soube disso, mas porque fui aprendendo pelos silêncios, pelos desvios, pelos cadernos que nunca tive coragem de deixar à vista.

Escrevo desde criança.

É estranho dizer isso, como se uma menina pequena pudesse compreender o que fazia ao colocar palavras no papel… mas, eu escrevia.



Escrevia e escondia.

Guardava tudo como quem protege um segredo frágil demais para o mundo. Parte dessa cautela nasceu no dia em que meu diário foi lido pelo meu irmão mais velho, pelo receio de que outros pudessem ler o que eu queria guardar.A partir dali, escrevi sempre com a sensação de que algo poderia ser arrancado de mim.




Lembro de um texto sobre uma estátua.

Não sei mais o que dizia, e talvez por isso mesmo ele me acompanha.

Há anos fantasio sobre quem era aquela estátua:

seria eu?

Uma tentativa infantil de me ver por fora, rígida, silenciosa, tentando existir dentro de um ambiente onde tudo parecia me atravessar?

Nunca vou saber.

E, de algum modo, aceitar esse não-saber também é escrever.


Das coisas que produzi naquele tempo, quase nada restou — exceto uma carta que uma prima encontrou recentemente e me enviou.

É curioso como partes nossas continuam vivas no mundo, mesmo quando já não lembramos que um dia as deixamos ali. Há um rastro que permanece, mesmo quando pensamos ter perdido tudo.


Volto a escrever agora.

Depois dos papéis dobrados, do Fotolog, do primeiro blog, dos cadernos guardados, das palavras que tentei matar e das que insistiram em me chamar de volta.

Escrevo sobre a vida — essa que pulsa, fere, desacomoda, desestrutura e, ainda assim, me sustenta.

Escrevo sobre o que me atravessa.

Sobre o que me inquieta.

Sobre o que não sei nomear e, talvez por isso mesmo, precise ser escrito.


Hoje, escrevo para o mundo, mas antes de tudo escrevo para mim — para a menina que perdeu a poesia da estátua, para a adolescente que escondeu seus cadernos, para a adulta que percebeu que algumas feridas só cicatrizam quando encontram palavras.


E, como canta Sandy: “Seja bem-vindo — entre sem bater, sem julgar nem tentar entender. Deixe as armas e angústias do lado de fora.

Em troca, ofereço a música e o agora.

(…)

Me desfaço da vergonha e de certezas incertas.

Pois quem olha pra fora,

sonha.

E quem olha pra dentro,

desperta.”


Este é o começo. Ou, talvez, o retorno a um começo que sempre esteve aqui.

Comentários


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Olá, que bom ver você por aqui!

Estudante de Psicologia — Interessada em psicanálise, pessoas e livros.
Atravessada pelas palavras e fazendo casa nos encontros que nascem delas.

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